Dicas de Saúde

Entrevista com o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho

Considerado um dos melhores neurocirurgiões do país, o médico Paulo Niemeyer Filho é um exemplo na medicina: opera desde pessoas famosas até aqueles que não têm recursos para  pagar uma cirurgia. Filho de um dos pioneiros na especialidade, o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho é um obstinado e apaixonado pela medicina. Formado pela UFRJ, ele tem especialização na Inglaterra e doutorado na Escola Paulista de Medicina.

Desde a década de 80, Paulo Niemeyer Filho faz parte do corpo clínico da Clínica São Vicente, onde possui um consultório. Também dirige o Depto. de Neurocirurgia da Santa Casa da Misericórdia e o Hospital do Cérebro, cujo nome é uma homenagem ao pai, Paulo Niemeyer. Ele é o entrevistado especial da “NewsLetter” da Clínica São Vicente, onde fala da sua vocação como médico, dos desafios da profissão e sobre o futuro da neurocirurgia.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: Qual o legado que o seu pai deixou que o senhor pratica até hoje na profissão que escolheu?

PAULO NIEMEYER FILHO: O meu pai foi um pioneiro da neurocirurgia, principalmente, no que diz respeito à modernização da especialidade. Ele não foi o primeiro neurocirurgião brasileiro, mas foi quem introduziu as técnicas modernas e criou uma grande escola de neurocirurgia, apesar de nunca ter sido professor universitário, e deixou um legado muito grande de modernidade e de aprendizado. Em todos estes anos eu tenho procurado mantê-lo. Nós sempre mantivemos na Santa Casa e agora, no Instituto do Cérebro, uma atividade acadêmica, com residência médica, pós-graduação e procuramos estimular os jovens a se aperfeiçoarem, a viajarem ao exterior e estarem atualizados com o que há de mais moderno na área.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: O senhor tem um consultório na Clínica São Vicente, mas também atende gratuitamente a pacientes na Santa Casa da Misericórdia e, mais recentemente, no Hospital do Cérebro. Como é o seu dia-a-dia? O senhor opera todo dia?

PAULO NIEMEYER FILHO: Eu opero diariamente há muitos anos e estou sempre me dividindo entre a Clínica São Vicente e as atividades acadêmicas; no caso a Santa Casa e o Instituto do Cérebro, onde opero três dias na semana.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: Fale da sua experiência no Hospital do Cérebro.

PAULO NIEMEYER FILHO: O Hospital do Cérebro é um sucesso. É o primeiro com esse perfil no Brasil, pois existem outros centros de pesquisa, mas como instituto do cérebro voltado para cirurgia e tratamento de doenças neurológicas, é o primeiro e único. Hoje funcionamos com 44 leitos de CTI e quatro salas de cirurgia e já foi iniciada a construção de outro prédio de 12 andares, acrescentando mais 120 leitos. Com esta ampliação, teremos um andar só para neurocirurgia infantil com CTI infantil e dois andares de reabilitação. Enfim, é um projeto grande e nós estamos entrando agora na segunda etapa. Foi uma homenagem bonita ao meu pai, e que eu achei muito justa, idealizada pelo Sérgio Cortes, que era o secretário de saúde estadual na época.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: Como está a demanda de cirurgias no Instituto do Cérebro?

PAULO NIEMEYER FILHO: Em um ano nós já passamos de 1.200 cirurgias eletivas, todas de alta complexidade, como epilepsia, Parkinson, tumores cerebrais, aneurismas e má formação, que demandam grande experiência do cirurgião. É um centro de referência que vai crescer cada vez mais, pois a tendência é que o Instituto do Cérebro conte com equipamentos cada vez mais sofisticados, que são muito caros, e que não é possível instalá-los em todos os hospitais. Para 2015 será adquirido o gamma knife, um aparelho de radioterapia que tem precisão milimétrica e é usado para lesões cerebrais profundas. O seu custo é de cinco milhões de dólares e será o primeiro no Rio e o segundo no Brasil. É importante contarmos com um equipamento desse porte num centro de referência como o Instituto do Cérebro.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: O que o senhor ainda considera um desafio nas suas cirurgias?

PAULO NIEMEYER FILHO: Toda cirurgia é um desafio. Eu procuro encará-las sempre com maior respeito e como se fosse a mais difícil, porque qualquer descuido ou relaxamento pode ter um resultado ruim. Então, mesmo as cirurgias mais simples eu costumo vê-las como um desafio, pois nunca são iguais.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: Como vê os avanços no tratamento das doenças de Parkinson?

PAULO NIEMEYER FILHO: A doença de Parkinson é uma doença degenerativa e não é curada pela cirurgia, mas ela pode trazer alguns benefícios ao paciente, como controlar ou abolir alguns sintomas que o remédio não resolve, como, por exemplo, o tremor. Então é uma cirurgia que melhora a qualidade de vida do paciente. A cirurgia de Parkinson está dentro de uma subespecialidade da neurocirurgia que se chama neurocirurgia funcional, que interfere na função do cérebro e está sendo usada para várias situações, como por exemplo, os distúrbios alimentares. Através desta cirurgia é possível interferir nos núcleos que provocam a fome e a ansiedade. Também está sendo usado este tipo de cirurgia, de estimulador cerebral, para a obesidade e anorexia nervosa.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: O aneurisma pode ser evitado?

PAULO NIEMEYER FILHO: O aneurisma não tem como ser evitado, mas podemos diagnosticá-lo precocemente. Por isso, há muitos anos eu recomendo que se faça um check-up cerebral, porque há uma tendência de se fazer o check up do pescoço para baixo. Isso é cultural. A pessoa acima de 40 anos que já faz o check up periodicamente, não pode deixar 
o cérebro de fora, pois muitas vezes, pode-se encontrar um aneurisma. O tratamento do aneurisma que nunca rompeu é muito mais fácil e muito mais seguro do que aquele que já rompeu e que tem uma mortalidade de 50%.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: Como tratarmos a perda de memória?

PAULO NIEMEYER FILHO: A cirurgia funcional vem sendo usada também como tentativa de estimular a memória. A perda de memória é decorrente do envelhecimento, pois o cérebro envelhece junto com o resto do organismo. Existe hoje em dia uma série de remédios para tentar estimular a memória, mas são paliativos. A decadência da memória acompanha a decadência da vida.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: Qual a evolução que ainda terá a neurocirurgia?

PAULO NIEMEYER FILHO: A neurocirurgia caminha para as áreas de genética e de células tronco e a cirurgia restauradora será a próxima etapa da especialidade. A neurocirurgia funcional está se desenvolvendo muito e no momento é a subespecialidade que mais cresce. Um doente que teve AVC e que ficou com um lado paralisado, com o emprego das células tronco, futuramente, será possível, teoricamente, restaurar aquela área cerebral e o movimento perdido. Então, eu acho que a medicina genética, o advento das células tronco e a biologia molecular, ou seja, todo esse progresso, vai ser o futuro da neurocirurgia.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: A tecnologia está se sobrepondo ao médico?

PAULO NIEMEYER FILHO: Isso é inevitável. Em minha opinião, a tecnologia não se sobrepõe ao médico, mas ela tem que estar à disposição dele e foi isso que possibilitou o desenvolvimento da medicina. O desenvolvimento da indústria é que leva ao desenvolvimento da medicina. Por exemplo, para se fazer uma inseminação artificial e manipular um óvulo 
são necessários instrumentos microscópicos. Então, sem a indústria capaz de produzir esses instrumentos a medicina não pode progredir. Isso ocorre em todas as especialidades, inclusive na neurocirurgia. Então, eu não sou absolutamente contra o progresso e a tecnologia, mas acho que ambos têm que andar em paralelo com a parte humana.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: É possível prevenir as doenças neurológicas? Como?

PAULO NIEMEYER FILHO: Hoje em dia fala-se muito em prevenção, mas por enquanto ainda há uma grande limitação. Surgiu recentemente um exame para diagnosticar precocemente a doença de Alzheimer, mas para que serve essa descoberta? Não há nenhum tratamento e não há nada a fazer para curá-lo. Evidente que é um progresso, mas esta descoberta só vai trazer aflição e angústia, porque não há nada a ser feito. Então, eu acho que tem que se procurar prevenir as doenças que podem ser tratáveis principalmente, o aneurisma, que é uma doença causadora de morte súbita e que pode ser evitada se for diagnosticado precocemente.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: Como o senhor lida com os casos em que é impossível operar e salvar um paciente?

PAULO NIEMEYER FILHO: Isso é relativamente comum. É preciso respeitar o limite e programar o que for mais confortável e menos agressivo para aquele paciente.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: O seu pai clinicou até com um pouco mais de 80 anos. O senhor pensa em seguir esse caminho?

PAULO NIEMEYER FILHO: O meu pai realmente saiu do consultório e foi parao hospital, quando veio a falecer, com 90 anos. Ele operou até os 70 e poucos anos e foi diminuindo, naturalmente, a complexidade das cirurgias. Depois ele ficou só no consultório e trabalhou até os últimos dias de vida. É difícil fazer uma programação, mas quando nos dedicamos a vida inteira a um único assunto é muito difícil parar. Eu tenho muito receio, pela experiência que tenho no consultório, de ver pessoas que se aposentaram e entraram em depressão. Então, quem consegue manter uma atividade paralela, como um hobby, é um felizardo, porque tem alternativa quando decidir parar de trabalhar, mas eu só vejo graça no que faço. Então, o meu caminho deve ser parecido com o do meu pai.

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: Que conselhos o senhor pode dar aos novos neurocirurgiões que querem trilhar o seu mesmo caminho?

PAULO NIEMEYER FILHO: Eu acho que primeiro eles devem ter o desejo de ser um neurocirurgião, porque é preciso estudar muito e ter muita dedicação. Também têm que ser um obstinado, pois é necessário, pelo menos, 20 anos para se ter um mínimo de formação e poder dizer, realmente, que é um neurocirurgião. Então, é uma especialidade de longo prazo, que exige muita dedicação e muito estudo. 

NEWS CLÍNICA SÃO VICENTE: Qual é seu hobby?

PAULO NIEMEYER FILHO: O meu hobby é estudar, é a leitura. Eu gosto muito de ler.